as dores e as delícias da não-monogamia
(estamos pensando em abrir o relacionamento…como faz? quais são os passos?)
Nos mais de 10 anos que eu estudo-vivo-trabalho com relacionamentos afetivos, já vi muitas dinâmicas de relacionamento, com configurações diversas. Alguns extremamente rígidos, fechadíssimos e de mãos dadas com a monogamia cristã, outros com mais ou menos aberturas e limites - que flertavam aqui e ali com a não-monogamia.
Eu, assim como toda psicóloga e terapeuta de casais que tem uma leitura política e social sobre relações afetivas, entendo que se tá todo mundo conversando e todo mundo bem, o que menos importa é o rótulo, se é mono, se é não-mono, enfim. Pra mim, se existe a prática do amor e do respeito mútuo, da honestidade e do cuidado, tá show de bola.
Mas como uma mulher parda, mãe e bissexual, não posso deixar de pensar que, dependendo de onde você veio (que tem a ver com território, classe, raça e religião também) é difícil até mesmo conceber a ideia de um relacionamento aberto - depende muito do contexto, das relações de poder que existem sem a gente perceber, e mais um tanto de outras coisas que dá pra gente problematizar aqui pra dizer que: o buraco às vezes é mais embaixo do que só afirmar “eu tenho o desejo de me relacionar afetivamente com mais de uma pessoa”.
Pra algumas pessoas (e aí, de novo, faço um recorte de raça/classe/corpos aqui), já é difícil conseguir estabelecer um relacionamento, se sentir digna de afeto e de fato recebê-lo de uma pessoa…que dirá de várias.
Dito isso, to puxando esse papo sobre não-monogamia/relacionamento aberto aqui especialmente pra responder uma pergunta que recebi na caixinha no instagram (“quais são os passos pra estabelecer novas regras em um relacionamento que pretende abrir?”). Se esse não é um tema com o qual você está familiarizada, espero poder contribuir com um ponto de vista que talvez possa gerar alguma reflexão por aí, vamos ver :)
Pra início de conversa, vale a gente considerar que a maioria das pessoas entre 20-45 anos, acredito eu, não teve uma criação onde se relacionar com mais de uma pessoa de forma pública (escondido, até ia!) era uma possibilidade; mas hoje, em 2025, acredito muito que olhar pra esse desejo como algo que pode surgir (e que tem surgido cada vez mais!) precisa de alguns cuidados especiais.
A verdade é que no momento em que vocês começam a questionar “será que isso faz sentido pra gente?”, vocês começam a considerar a ideia de que talvez as coisas não precisariam ser tão endurecidas ou tão mono (mono = um, ou é homem ou é mulher, ou é hetero ou é homo, ou tá dentro ou tá fora da relação, etc.) assim; talvez não seja impossível coexistir uma troca de afetos com outra(s) pessoa(s)…e talvez isso nem afetasse taaanto o relacionamento de vocês (afetar, vai afetar, isso é certo!).
Acho importante dizer que não se trata de convencer o outro do que vocês deveriam ou não fazer (!!!), mas de compreender se esse é um caminho possível para ambos. Tudo bem que 10, 15 anos atrás talvez fosse impossível de ter essa conversa francamente…mas relacionamento muda junto com a cultura, e a gente tá mudando o tempo todo. A proposta então talvez devesse ser mais de desconstruir aquilo que se acreditava e construir outros caminhos, outras possibilidades, outras regras…e apostar numa re-construção contínua de uma outra forma de se relacionar com a mesma pessoa também vale!
E é aí que eu entro. Na terapia de casal, vejo três cenários principais que aparecem na clínica quando o assunto é ABRIR O RELACIONAMENTO:
Cenário 1: uma das pessoas do casal gostaria que abrissem a relação e não sabe como sugerir isso sem que seja uma ofensa/insegurança para a outra pessoa OU precisa lidar com as consequências de ter trazido esse assunto.
Cenário 2: uma das pessoas do casal tenta repetidamente convencer a outra pessoa de que seria uma possibilidade, enquanto a outra não consegue nem considerar uma relação aberta.
Cenário 3: as duas pessoas já consideraram a possibilidade de abrirem a relação, mas tem medo de não saber cuidar do que vai provocar na relação. E se, ao final das contas, alguém se apaixonar por outra pessoa?
Tento sempre entender se o desejo por uma relação aberta tem mais a ver com algo do qual se sente falta na relação atual (e aí caberia mais manter a relação de forma monogâmica, mas com cuidados e estratégias especiais pra melhorar a relação, por exemplo) OU se é puramente uma exploração das possibilidades, de se imaginar em outros cenários, com outras(s) pessoa(s), e um desejo de compartilhar uma nova etapa da relação…e acho que esse segundo é um bom ponto de partida pra responder a pergunta feita (como abrir a relação? que regras?).
Fazer essa transição de um relacionamento monogâmico para um relacionamento aberto é um processo delicado, que exige conversa(ssss!) e uma dose generosa de empatia…e disposição.
O primeiro passo, então, é abrir espaço para um diálogo honesto, mesmo. Isso significa falar abertamente sobre motivações, expectativas e receios em um relacionamento com uma dinâmica não-tradicional (ao menos na nossa realidade brasileira).
Daí, o segundo passo é considerar quais seriam os limites, ou, como dizem, “os acordos”. Esses “acordos” (odeiooo essa palavra! que não acho que a gente faz transação de afeto, não é tão simples assim, mas to usando aqui porque torna mais fácil!) são o principal ponto de partida pra ir tateando os limites do desejo (do seu e da outra pessoa com quem você se relaciona primariamente), explorando mesmo, com curiosidade. Eles funcionam como guias que garantem o respeito mútuo e a segurança emocional do casal. As conversas geralmente giram em torno de alguns pontos principais:
A) Tipos de envolvimento: Serão apenas encontros casuais/sexuais, ou há espaço para conexões emocionais?
B) Limites e espaços: Vocês preferem que os encontros com outras pessoas aconteçam fora do ambiente doméstico? Existem momentos ou situações em que esses encontros são inapropriados?
C) Nível de transparência: Vocês contarão tudo um ao outro, ou preferem manter alguns detalhes em privado?
Recomendo que antes de estabelecer regras definitivas, vocês se perguntem: D)"O que cada um de nós espera dessa mudança na nossa relação? Quais são nossos maiores medos?"
Apesar de pesquisas recentes indicarem que a satisfação e o bem-estar em relações não-monogâmicas estão diretamente ligados à clareza dos acordos e à comunicação constante, eu, particularmente, adicionaria uma nota de rodapé dizendo que vale muito a pena olhar pro lado emocional, não só pro lado racional nesse primeiro momento de exploração; digo isso porque, por conta da insegurança e dos ciúmes de imaginar a pessoa amada com outra, é normal que as pessoas coloquem cada vez mais regras e se apeguem aos detalhes (tentando definir exatamente o que, quando, com quem, de que forma se faz tal e tal coisa, sabe?)…mas na prática as coisas são diferentes, e precisam ser sentidas pra vocês entenderem o que cabe e funciona pra vocês - ou não.
O mais importante é que vocês encaram esse processo com honestidade, pra que possam desenvolver um laço mais forte, aprendendo a confiar um no outro de forma consciente e ativa (fazer terapia individual é essencial pra viver esse processo cuidando da cabeça e do coração, SÉRIO!)…isso cria uma base mais sólida pra aguentar os momentos de confusão, quebra de expectativas, ciúmes… inclusive, muito se engana quem pensa que quem vive uma relação não-mono não sente ciúmes.
Quer dizer, abrir a relação necessariamente envolve você experienciar sentir ciúmes imaginando a pessoa com outra, sentir medo do desconhecido, de ser rejeitada ou trocada, de se tornar mais íntima da possibilidade da perda. O segredo não está em evitar essas emoções, de ser “a boa não-monogâmica” e fingir que não está sentindo aquilo que machuca, como diz a Brigitte Vasallo (vale a pena conhecer o trabalho dela se quiser saber mais profundamente sobre poliamor!), mas em aprender a acolhê-las de verdade, de forma vulnerável.


A ideia é que vocês possam, ao longo do tempo, sentir alegria pelo prazer e pelas descobertas um do outro (o nome usado é compersão, de compersion, que é a superação dos ciúmes pelo parceiro), mas esse não precisa ser o objetivo inicial.
Se vocês desejam abrir a relação, foquem primeiro em criar espaços de escuta e validação emocional, permitindo que ambos expressem seus medos e desejos sem julgamento.
Além disso, garantam que esse processo seja feito com carinho, com troca de afeto; eu recomendo fortemente que os casais que estão explorando esse desejo criem "momentos de check-in", onde compartilham emoções e revisam os combinados, garantindo que nenhum dos dois se sinta deixado para trás, abandonado, enganado. Esses momentos fortalecem a confiança e ajudam a lidar com os desafios emocionais que vão surgir uma hora ou outra!
1 segundo para vender meu peixe: é claro que a gente pode trabalhar essas questões na terapia de casal! Podemos conversar pra que eu possa auxiliar especialmente o caso de vocês, é só fazer a aplicação aqui!
Vale dizer também que os acordos iniciais não precisam ser definitivos, rígidos, gravados em pedra. Conforme o relacionamento evolui, novos limites vão surgindo e antigos podem se tornar desnecessários - daí vocês reavaliam e ajustam os termos do relacionamento como parte do processo de construção à 2, 3 ou mais!
Se posso te dizer algo, você que se reconheceu nos cenários que eu mencionei, é que: abrir um relacionamento monogâmico não é uma solução mágica para os problemas de casal. Se o seu intuito com abrir o relacionamento for de adiar/evitar um término, porque sentem que vocês não funcionam mais juntos mas não querem terminar o relacionamento, por exemplo, ou então se já não há comunicação ou parceria entre vocês…esse caminho de abrir a relação pode ser ainda mais difícil pra vocês!
Massss se a intenção de vocês é crescer e fazer essa exploração conjunta, alargando as possibilidades de trocas de amor, intimidade e afeto na relação, desejo muito que vocês tenham paciência: o “sucesso” desse processo está na coragem de ter conversas difíceis, no compromisso com a transparência e no cuidado mútuo entre vocês!
Como sempre, te agradeço pela leitura. Faz sentido pra você? Já pensou em viver um relacionamento aberto? Me conta? :)
Com carinho,
Carol Padilha.
Ps.: se você leu esse texto, comenta lá na foto que vou publicar no instagram sobre a news de hoje o que você achou, tá? ajuda muitão a galera a ler <3

