Confiar é um ato de fé.
Viver e amar com medo é dolorido...
Há uns anos, li um livrinho infantil que me quebrou em pedacinhos.
Era uma história sobre uma menina que guardou o coração em uma garrafa depois que sofreu uma perda. Contei essa história em vídeo na época, chorei enquanto gravava…tentei regravar e chorei de novo hahaha você pode assistir aqui antes de acabar de ler a news de hoje, mas vou te contar a história por aqui também.
De vez em quando, penso nessa menina.
Ontem foi um desses dias.
Na história, ela cresce e se acostuma a viver com o coração guardadinho ali na garrafa, pesando no peito, para onde ela fosse. Com o coração guardado, ela não se emocionava com as coisas que antes mexiam com ela - as estrelas, a imensidão do mar…mas ela preferia isso do que sofrer novamente.
Preferia ficar ali, protegida.
Até que ela, já adulta, conhece uma menininha que a lembra de quem ela foi. A menininha perguntava coisas que ela não sabia responder, porque precisava responder com o coração. E, pela menininha, a agora mulher decide quebrar aquela garrafa que guardou seu coração por tanto tempo…até descobrir que a garrafa era inquebrável.
Independente do que ela tentasse, não conseguia quebrar ou tirar o coração da garrafa. A menininha fez com que ela desejasse sentir novamente, mas nada da garrafa quebrar. Até que a menininha perguntou se poderia ajudar - e, com muita calma, retirou o coração da garrafa. Agora elas podiam sentir a imensidão das coisas juntas.
Esse poderia ser um texto só sobre amor e relacionamentos, até sobre o tanto que ser mãe me mostra diariamente que a gente precisa observar o amor nos detalhes, se permitir enxergar aquilo que tá bem na nossa frente. Mas acho que é um texto sobre perda, sobre saudade, e sobre a disposição para recomeçar novos ciclos, vamos ver.
Digo isso porque, em meio às nossas decepções, sejam elas com relacionamentos amorosos, com amizades, com trabalhos, com planos que deram errado…é preciso sempre fazer um movimento de se permitir quebrar a garrafa, abrir nosso coração para uma possível perda e fazer um voto de fé de que vai dar tudo certo nesse caminho que estamos agora.
Nesse novo emprego,
nessa nova relação,
nesse novo momento de vida.
O problema é que nem sempre isso é suficiente…é preciso também permitir ser afetada e transformada. Quando digo afetada, quero dizer: imagina uma bolha de sabão encostando numa outra bolha de sabão. É assim que penso cada encontro, cada afeto que a gente tem com a vida e com as pessoas: bolhas que se misturam, mas não viram uma coisa só, mas que viram uma outra bolha meio disforme, maior e mais bonita - se você não viu essa analogia na sua cabeça, te aconselho fortemente a ir procurar um negocinho de soltar bolha de sabão e brincar um pouco com as formas e cores, vai valer a pena!
Pois bem, chegamos à ontem.
Ontem sonhei, pela milésima vez, com a pessoa que me fez colocar meu coração numa garrafa.
Nesse dia, uma tarde quente de fevereiro de 2020, logo antes da pandemia, tive uma decepção enorme com uma amizade que era das mais importantes pra mim. Ali, algo mudou profundamente em mim. Nada nunca, nunca mesmo, me doeu tanto quanto aquilo. De lá pra cá, me sinto e me percebo diferente em todas as minhas amizades, novas ou antigas.
Sei bem que, desde aquele dia, nunca nem permiti que outra pessoa chegasse tão perto quanto aquela amizade chegou. Dizem que término de amizade é pior que término de namoro…talvez eu concorde.
Quantas de nós, que sofremos decepções, perdas e términos doloridos, não endurecemos, guardamos nossos corações numa garrafa?
Quantas de nós conhecemos pessoas que tentaram se aproximar, mas que não permitimos por medo de sofrer novamente?
É só olhar para trás.
Confiar é um ato de fé: é como um presente que a gente oferece (nem sempre de bom grado) para alguém especial, como quem diz “espero que você cuide bem”.
Quero muito, muito mesmo, poder confiar inteiramente na próxima pessoa que se ofereça para quebrar essa garrafa.
Quero poder me desfazer desses muros imensos de proteção que ela, a garrafa da amizade, se tornou; já são 4 anos de terapia tentando, tentando, tentando…e ainda não consegui completamente. De pouquinho em pouquinho, tenho conseguido permanecer depois de ser vulnerável, tolerar o desconforto de arriscar convidar alguém para entrar - o que, hoje, já considero uma vitória.
Tem coisas, decepções, perdas, quebras de confiança, que talvez a gente precise cuidar na gente a vida inteira para conseguir lidar…coisas doloridas, que talvez afetem nossas outras relações sem a gente nem perceber.
Espero que você, que está lendo esse texto, consiga perceber e se desfazer das garrafas que você carrega, e que sinta com todo seu coração aquilo que a vida e que suas relações te oferecem.
Com amor,
Carol Padilha



