Construir relações sólidas dá trabalho...
Mas alguns trabalhos, apesar de árduos, são gratificantes e nos enchem de felicidade.
Há alguns anos, ouvi uma história que mudou completamente a forma com que eu via minha vida, meu trabalho e minhas relações - e é essa história que quero te contar hoje. Essa parábola está no livro “Garra”, da neurobióloga, neurocientista e pH.D em psicologia, Angela Duckwortth, e é uma parábola sobre três pedreiros.
Perguntam a três pedreiros: “O que vocês estão fazendo?”
O primeiro responde: “Estou assentando tijolos”.
O segundo responde: “ Estou construindo uma igreja”.
O terceiro responde: “Estou construindo a casa de Deus”.
O primeiro pedreiro tem um emprego. O segundo, uma carreira. O terceiro, uma vocação.
Você consegue se reconhecer em algum desses pedreiros quando pensa no seu trabalho?
E quando pensa na sua relação?
Apesar de estar falando sobre trabalho, entendo que o raciocínio de Angela nos ajuda a ter uma visão mais ampla e conectada do que estamos fazendo no dia a dia das nossas relações. Ela nos conta que, em proporções iguais, as pessoas se identificam com as seguintes opções:
Ter um emprego (“Ver meu trabalho como uma necessidade da vida, assim como respirar ou dormir”)
Ter uma carreira (“Ver meu trabalho sobretudo como um trampolim para outros trabalhos”)
Ter uma vocação (“Meu trabalho é uma das coisas mais importantes da minha vida”)
Só uma pequena parte das pessoas vê suas ocupações como uma vocação; essas, dizem com convicção que “meu trabalho faz do mundo um lugar melhor”. E essas são as pessoas aparentemente mais satisfeitas com o trabalho e com a vida em geral.
Analogamente, fico aqui pensando que é comum encontrar pessoas que estão em um relacionamento amoroso pensando unicamente na companhia e no prazer do hoje. Olham apenas para o próximo tijolo, pensam apenas em compartilhar a vida enquanto o relacionamento dura. Ou ainda, pessoas que procuram muito mais construir uma vida e uma família ao lado de alguém e permanecem em relações que só fazem sentido no futuro (“se tal coisa acontecer, se tal mudança ocorrer, aí sim seremos felizes inteiramente”), mas no presente ainda precisam construir uma base sólida de bons tijolos, a partir da confiança, da intimidade e da segurança relacional.
Em “Garra”, Angela afirma que, apesar de socialmente julgarmos que um trabalho com propósito é muito melhor do que um trabalho que simplesmente paga as contas, não há nada de errado em não ter uma ambição nesse sentido e trabalhar unicamente para fechar o mês de forma tranquila.
Por outro lado, também não vejo problema algum com estar em uma relação simplesmente para curtir o tempo que está sendo compartilhado, sentir prazer, oferecer e receber carinho e afeto - se isso for dito e alinhado desde o início. O que vejo na minha experiência clínica enquanto psicóloga e terapeuta de casais, no entanto, é que o problema está em construir uma relação com a intenção de assentar tijolos, enquanto a pessoa que está trabalhando na relação ao seu lado (e trabalho digo trabalho mesmo, com investimento físico e emocional de pensar e viver junto) tem a intenção de construir uma relação duradoura, um casamento, uma família - ou, na nossa analogia, construir uma casa. Percebe a diferença?
Fato é que, em todos os estudos na área da psicologia positiva, bem-estar e autorrealização, o que temos de dados e pesquisas é que uma visão de relacionamento ou de trabalho que considera o futuro, que se conecta ao quadro mais amplo ou a expressão de seus valores mais profundos, traz muito mais satisfação e gratificação do que viver orientado apenas pelo prazer momentâneo.
Quando Angela fala sobre garra, ela fala da força de atletas bem sucedidos de permanecer em uma atividade continuamente, de forma disciplinada, melhorando cada vez mais a partir do treino diário; ela também fala do prazer de receber as conquistas e resultados após anos de dedicação, foco e persistência.
Mas como aqui falamos de relacionamento e bem-estar na vida e no amor, o que eu quero dizer é: desejo muito que a gente saiba avaliar as relações que realmente valem a pena insistir, cuidar, lapidar ao longo dos anos. Não são todas…e é preciso alinhar, conversar, conversar de novo depois de um tempo para continuarmos no caminho certo.
Há relações que, apesar do nosso esforço contínuo de colocar tijolo por tijolo, do nosso desejo de ver uma casa pronta, não se tornam um lar. Observe as bases, a estrutura relacional. Perceba como está sendo feita a manutenção da casa...com o tempo, as chuvas e as secas, até o mais lindo dos castelos se torna ruínas se não estiver bem cuidado. Observe suas ações de construir e cuidar, quem constroi e cuida ao seu lado.
Entre para morar, habitar sua casa; Pinte as paredes de cores felizes;Decore de um jeito que expresse quem você é e quem vocês são. A casa é sua.Sua relação é sua!
Faz sentido?
Com amor,
Carol Padilha

