Escrever um livro é intenso. (Notas da Escrita #2)
O processo de escrever um livro era pra ser...emocionante assim mesmo?
Hoje acordei às 5h30, fiz uma tigela de ceral com leite, li um tanto…e sentei pra escrever um tanto mais Do Meu Livro. Chamo assim porque ele parece até uma entidade do tanto que tenho falado sobre ele.
Foi estranho e bonito perceber que, ao escrever, eu estava voltando a uma versão mais jovem de mim mesma — a garota que começou a se relacionar cedo demais, aos 13 anos, sem ter maturidade emocional para lidar com tudo que estava em jogo.
Antes dos 18 anos, eu já tinha vivido relações que me machucaram imensamente. Fruto de ser adiantada na escola, eu admito, comecei o ensino médio com 13 e a faculdade com 16, caso você não saiba. Todos os meus amigos eram mais velhos, eu me sentia mais velha. Mas não era. É duro reconhecer que, no período em que deveríamos estar descobrindo o mundo com mais leveza, explorando nossa capacidade de sentir de forma intensa e avassaladora, muitas vezes aprendemos lições sobre dor, abandono e violência.
Lembro muito de me sentir adulta sem ser, como se meus relacionamentos pudessem me ensinar mais rápido o que é ser gente. Hoje sei que aquilo não era aprendizado no sentido pleno, mas sobrevivência. Fui adoecendo, definhando, destruindo a mim e a outras pessoas - sem muita orientação familiar ou um acolhimento do que ia acontecendo comigo, diga-se de passagem, porque não era uma realidade falar de namorinho em casa.
Eu ouvia os conselhos das minhas amigas e fazia o melhor que eu podia, mas era um caos completo. Eu só queria me sentir amada, vista, cuidada…e, por isso, me enfiei em situações que…meu Deus. Sinto um pouco de pena da Carolzinha de 13/14/15 anos.
Talvez eu me arrependa de ter me envolvido com algumas pessoas tão cedo, não sei dizer. Já trabalhei em análise, mas é complexo. Ao mesmo tempo em que sei muito poderia ter sido evitado, também reconheço que essas experiências me moldaram e me amadureceram — não só como mulher, mas como profissional também. Quando cheguei à clínica lá no estágio no Serviço de Psicologia Aplicada da UFF (eu tinha ali 18 pra 19 anos na época), cheia de inocência sobre o que significava trabalhar com casais e com pessoas num geral, eu não tinha ideia de que meu próprio histórico já me colocava, inevitavelmente, ali pra jogo.
Naquele início na clínica, eu acreditava que o amor “certo” seria suficiente.
Acreditava que bastava encontrar alguém disposto, e tudo se ajeitaria.
Não demorou muito para perceber que, na prática, os relacionamentos são muito mais complicados; atravessados por desigualdades sociais, expectativas de gênero, histórias familiares, traumas individuais e coletivos.
É nesse ponto que minha clínica e minha vida se encontraram: ao mesmo tempo em que eu tentava entender os casais, ler sobre relacionamentos e subjetividades, eu também aprendia sobre minha própria forma de amar. Foi mais ou menos nessa altura em que eu comecei a me relacionar com meu namorado (hoje marido e parceiro de vida), além de começar a psicoterapia (grazadeus, amém!).
É dessa mistura que o livro nasce: de um lugar em que não há fronteira clara entre a minha experiência pessoal e minha prática profissional. Quero escrever não apenas sobre o que observei como psicóloga, mas também sobre o que vivi, porque sei que muitas vezes esses dois movimentos — atender casais e me tornar adulta — foram acontecendo lado a lado.
📖 Um pensamento que me acompanha hoje: bell hooks, em Tudo Sobre Amor (referência que trago aqui pela milésima vez, eu sei), nos lembra que nossas primeiras experiências com o amor moldam nossa crença (ou descrença) na possibilidade de amar de maneira saudável. Quando olho para trás, percebo como aqueles relacionamentos adolescentes poderiam ter me ensinado a desistir. Mas o que encontrei na clínica foi outra coisa: a chance de ressignificar, de experimentar novas formas de vínculo e de acreditar, outra vez, na potência de se relacionar com cuidado e responsabilidade.
🔗 Outras leituras que dialogam com esse início Do Meu Livro:
Kilomba, G. Memórias da Plantação (2019) — especialmente os trechos sobre como experiências precoces de opressão marcam os afetos.
Glottlieb, L. Talvez você deva conversar com alguém — quando ela mesma mistura clínica e vida pessoal para pensar relacionamentos-trabalho-autoconhecimento.
Escrever hoje, nessa segunda-feira, foi como abrir uma janelinha. Soltei uma lagriminha ou duas, sim. De um lado, revi a inocência daquela jovenzinha que achava que amar era simples, era “só querer”. Do outro, quis trazer o que sei e ensino hoje, tantos anos depois, enquanto mulher-mãe-esposa-psicóloga-professora sobre outros jeitos de viver o amor, que podem ser aprendidos, praticados e escolhidos.
Meu Livro nasce desse encontro…e do que eu continuo aprendendo diariamente sobre mim e sobre relacionamentos na clínica.
Tenho compartilhado aqui na news um tanto desse processo…vamos ver pra onde vai <3
Volto a trazer mais diretamente sobre relacionamentos na próxima news, prometo.
Até já já
— Carol Padilha

