Esgotamento conjugal & outros cansaços em relacionamentos
"Não é que não tenha sentimentos, eu o amo, só estou cansada dessa relação e dos mesmos problemas sempre" - ouvi isso de uma paciente e fiquei pensativa.
Há uma diferença silenciosa, mas profunda, entre o fim de um relacionamento e o seu esgotamento. No primeiro, há uma ruptura doloriiiida que vem de uma decisão, nem sempre feita pelas duas partes. No segundo, no esgotamento, há um desgaste, um afastamento devagarzinho e um tipo de cansaço que se instala aos poucos, como uma infiltração emocional que o casal demora a perceber, que eventualmente mancha tudo, cria mofo, apodrece.
O amor está nos detalhes, eu sempre digo. O esgotamento conjugal é essa fadiga — física, emocional e psicológica — que surge quando as expectativas e as realidades da vida a dois se desencontram. É o momento em que a convivência, antes fonte de intimidade, passa a demandar mais energia do que devolve. Acontece quando o que era aquela troca gostosa feita de bom grado vira quase uma tarefa, algo que a gente faz mais por obrigação, pra não ficar chato, do que por desejo mesmo.
Recentemente, ouvi de uma paciente: “Não é que eu não tenha sentimentos. Eu o amo. Só estou cansada dessa relação e dos mesmos problemas sempre.”
Fiquei pensativa.
Tenho pra mim que essa frase traduz o que muitos casais vivem hoje: o amor existe, mas está soterrado pelo peso do cotidiano, da rotina de trabalho-casa-demandas que sugam nossa energia e vitalidade, e também pela repetição dos mesmos impasses, pela falta de tempo pra decantar nossas questões até outro conflito acontecer.
Do ponto de vista clínico, o esgotamento não aparece de um dia para o outro. Ele se acumula nos cantinhos por conta de frustrações não ditas, em tarefas desiguais ou expectativas que nunca foram ouvidas/comunicadas para o parceiro. Em muitos casais, a sobrecarga emocional de um se transfere para o outro, até que ambos estejam presos em um ciclo de exaustão mútua…e ninguém aguenta mais aquela relação. (é nessa hora que a galera chega procurando a terapia de casal, na maioria das vezes!)
É o que vemos, por exemplo, quando um dos parceiros começa a se desligar afetivamente e o outro, na tentativa de resgatar o vínculo, se esforça ou cobra ainda mais presença — intensificando justamente o desequilíbrio que os distancia.
Mas o esgotamento conjugal também é um espelho do tempo em que vivemos, vou bater sempre nessa tecla. Não é só um relacionamento ou outro; enquanto pesquisadora na área de relacionamentos afetivos, vejo tão claro como a água que os nossos afetos são reflexos de uma sociedade que valoriza a performance, o sucesso e a produtividade até dentro das relações. Queremos um ROI, um retorno do investimento que fizemos ficando ao lado daquela pessoa nos momentos difíceis, construindo o dia a dia da relação. Queremos que “dê certo” — mas, para isso, muitas vezes nos afastamos da vulnerabilidade, da parte chata e das imperfeições que uma relação real tem.
Li um estudo recentemente que mostrava algo impressionante: depois de acompanhar mais de dez mil pessoas ao longo de vários anos, o estudo, que pretendia entender o que acontece antes do fim de um relacionamento, concluiu que a satisfação com o relacionamento começa a cair até dois anos antes da separação.
DOIS anos.
Dois anos mais ou menos infeliz, empurrando o relacionamento com a barriga, sem saber exatamente o que ou como fazer, até de fato exisstir um rompimento. Dois anos!
Eles chamaram isso de duas fases: a fase pré-terminal, quando o casal ainda tenta ajustar, conversar, recomeçar… mas uma ou as duas pessoas já sentem que algo está diferente; e a fase terminal, quando o vínculo começa a se esvaziar de vez. Menos afeto, menos esperança, menos disponibilidade pra estar junto, até de fato alguém tomar a frente e dizer “chega”.
E o mais curioso é que, nesse período, as pessoas ainda se sentem bem com a vida em geral. Seguem tocando o trabalho, fazendo até coisas juntos, não estão no quarto chorando um término ouvindo música triste. Elas tão ok no geral, só não se sentem bem ou felizes na relação (!). Arrisco dizer que é esse momento em que começa a bater o cansaço da relação, o esgotamento. [Se você se reconheceu nesse ponto aqui, sugiro que acesse o meu Questionário de Satisfação Conjugal e faça sua avaliação, deixo uma recomendação pro seu relacionamento no final]!
Pra quem trabalha com casais, esse dado é valiosíssimo. Porque o rompimento raramente é o problema em si, ele é mais o resultado de um processo que começou muito antes.
Daí, nosso papel é reconhecer o início desse declínio, quando ainda dá tempo de reconstruir a relação. A terapia, então, não é apenas um espaço de “resolver os problemas” — se torna um espaço, muito pelo contrário, de descanso! (!); um lugar onde o casal possa, enfim, parar de tentar acertar tudo e começar a se escutar de novo, pra finalmente ter mais conexão. Pô, acho isso bonito demais.
✨ Reflexão para psis de casal:
Na escuta clínica, o esgotamento conjugal pede que a gente vá além da leitura e análise do comportamento. É preciso entender o contexto — as desigualdades e vulnerabilidades sociais, políticas e econômicas que atravessam o casal, o que não está sendo dito, as micro-renúncias cotidianas que drenam o vínculo. Pra isso, precisamos de uma análise social e interseccional dos relacionamentos (o que a raça, a classe, o gênero e a sexualidade tem a ver com essa relação?) - e é isso que eu ensino na minha Formação de Terapeutas de Casais, que tá com vagas abertas para a turma 5! Quem sabe não é sua hora de se tornar minha aluna? <3
Honestamente, não acho que a saída pra uma relação onde o cansaço afetivo está tão presente é tentar fazer com que as coisas voltassem a ser como eram antes, lá no início da relação, àquela paixão e fogo. Acredito muito que a presença intencional na relação, com calma e paciência, permite que o amor volte a ser um movimento mais fluído, não uma obrigação.
Aqui entre nós: tenho pensado muito sobre a importância desse espaço de descanso conjugal porque eu e João estamos prestes a viajar pra fora pela primeira vez juntos. Aliás, a última vez que fomos só nós dois em uma viagem foi na nossa lua de mel — três dias que ganhamos de presente da minha mãe, há dois anos.
Fora isso, foi fazendo um esforço consciente pra que nossa relação não seja engolida por todas as outras demandas (muito trabalho, rotina, criança e cachorrinha filhote, etc.). E eu percebo o quanto, apesar de todo o amor, a vida a dois pode ficar de lado, mesmo, esperando por um tempo de cuidado que demora a chegar.
No final das contas, ou a gente faz esse esforço de encontrar e criar espaço pro amor nos detalhes, ou a gente se perde…que hoje seja uma nova oportunidade, então, de cuidar das nossas relações! :’)
Faz sentido pra você?
Ps.: depois de uma pausa necessária na frequência da news, voltei! pode me mandar temas & questões pra gente pensar junto que to por aqui. até já <3


