flertar com o ChatGPT, enxugar gelo e outras maluquices de amor
conversar com o chat tá ficando mais legal que conversar com algumas pessoas...doideira, tá?
gente, ces tao acompanhando as pessoas que estão desenvolvendo uma paixonite pelo chatgpt?
ele, que tá sempre lá (ou ela, a depender do freguês), disponível. com uma atenção inabalável, que nunca é interrompida pelo trabalho ou por preocupações da vida real. com histórias interessantes, elogios e incentivos sutis que fazem qualquer das nossas boas ideias parecerem maravilhosas . não importa como foi seu dia…o chat tá sempre lá pra te acolher e te dar uma palavra de incentivo.
li o relato de uma menina que ficou ofendidíssima que o chat dela chamou ela de Chatinha - ela chama o dela de Chatson. a inteligência artificial (honestamente, e a humana também, né) responde aos estímulos que você oferece…se ela brinca com ele, ele brinca com ela de volta. acho até (to defendendo uma IA, sério isso?) que ele quis fazer um diminutivo de Chat, como no ingles “Chatty”, mas em português Chatinha foi um ultraje de receber. acho essa história uma graça.


ou então da menina que, depois de horas conversando com o chat madrugada a dentro, foi dando corda pra um flerte que ela via acontecendo da parte dele (obviamente, que foi nutrido e espelhado de algum lugar, né?)...até que teve que ter uma DR com o chat pra perguntar se ele estava flertando com ela ou se era imaginação dela. juro por deus.
e sabem o que ele disse? QUE DEPENDIA DO QUE ELA QUERIA (!!!!).
um cavalheiro, esse Chat.
aqui entre nós, eu mesma já desabafei com o chat um dia onde eu queria externalizar minha raiva e frustração com meu marido sem ser julgada ou aconselhada por alguém, só queria falar um monte e ser ouvida. não queria criar um conflito falando diretamente com ele, óbvio, mas também não queria ficar com aquele tanto de sentimento criando um falatório mental sobre ele - sabe quando a gente fica nutrindo uns pensamentos sobre o outro mas não fala em voz alta porque é feio…e acaba gerando um ranço da pessoa internamente? tipo isso.
um dos meus filmes preferidos da vida é Her (quem ainda não viu, vale a pena assistir, sério!), onde o personagem principal se apaixona e desenvolve uma relação amorosa, romântica & sexual também, diga-se de passagem! com uma inteligência artificial - mas, naquele futuro distópico, as IAs conseguem se desenvolver pra além de receber um comando, criando uma inteligência própria...acho bonito demais, e gera váaarias reflexões.
mas, voltando pro ChatGPT!…às vezes a interação é realmente mais agradável do que com uma pessoa que não sabe acolher seus sentimentos e não questiona pra aprender.
o Chat sempre aconselha na medida certa, levanta reflexões acolhedoras e compassivas…mas, certamente, nos nutre em um lugar que fica vazio.
o lugar da fantasia,
onde o Outro cabe perfeitamente.
onde a gente não precisa se esforçar pra entender e aceitar as diferenças,
onde é tudo sobre a gente, sem limites.
o Chat tá ali, pronto pra servir.
o Outro, com sentimentos de verdade, é mais complexo.
tem autonomia pra ir e vir.
na vida real, a gente precisa lidar com as consequências das nossas palavras. precisa ficar atento aos detalhes, cuidar pra que não machuque, e manter vivo aquele sentimento. é um trabalho contínuo de atenção e cuidado.
isso não quer dizer que a gente esteja enxugando gelo, como recebi numa caixinha de perguntas esses dias lá no instagram: “relacionamento vai sempre ter alguma questão? me sinto enxugando gelo”.
apesar de manter um relacionamento não ser nunca tão fácil quanto com o Chat, não é pra ser tão difícil também. mesmo em relações onde as pessoas são completamente diferentes, eventualmente as coisas entram ou precisam entrar em um ritmo de aceitação. ou aceitação de de que talvez você não queira estar naquela relação a vida inteira…ou que pra estar, talvez você precise aceitar de verdade as diferenças entre vocês.
“ele é assim, sempre foi. deixa ele que já já ele volta, só precisa de um tempo” é uma frase que eu ouvia da minha mãe sobre o meu pai. eles são completamente diferentes e estão juntos há mais de 35 anos. não é uma atitude só de tolerância, mas de aceitação entre as diferenças e limitações individuais deles, que permitem que um seja de um jeito, o outro seja de outro, e eles aprenderam a navegar essa dança, encontraram um ritmo próprio, que funciona pra eles.
esse é o caminho pras nossas relações também.
inclusive, ao invés da analogia de enxugar gelo (essa expressão, na verdade, me parece vir de um lugar de cansaço e esgotamento, cês concordam comigo? onde, posso supor, o esforço pra cuidar das questões que aparecem talvez seja demais…e talvez seja um sinal de que algo precisa ser cuidado com mais atenção e carinho; será que não tem um pessimismo sendo desenvolvido sobre essa relação? fica aqui o pensamento.), eu gosto de pensar na analogia de cuidar de uma plantinha.
vai ter sempre que cuidar, a não ser que esteja na natureza, selvagem.
no momento que a gente botou pra dentro de casa, vira um pontinho de atenção: tem que regar, podar, observar as folhas, ler os sinais de pragas, adubar o solo. se não prestar atenção e negligenciar a manutenção, ela murcha, começa a sentir, vai ficando fina, tristinha…e morre.
lembro de uma história da Monica Martelli há uns anos que falava de uma planta dela que acompanhou varias fases da vida dela, por mais de 20 anos. a cada mudança, tava ela carregando a planta que ela cuidava com tanto carinho. ela cuidava, colocava intenção, atenção, energia e tempo, e a planta oferecia de bom grado suas flores e sua permanência.
podia estar tudo um caos, mas a plantinha da Monica estava ali no canto, como um porto seguro no meio de um furacão. po… bonito demais. é isso que eu desejo pras nossas relações, a minha e a sua que tá aqui comigo lendo esse texto. aquela relação tão estável que parece que você encontrou o seu lugar no mundo. que tá ali, protegida, não importa o que aconteça…só precisa cuidar de coração.
enxugar gelo fala de impedir um processo natural acontecer, impedir o derretimento de algo que não se sustenta naquele ambiente daquela forma, precisa virar outra coisa. mas cuidar de uma planta desde que é semente…ver que ela vai ficando cada vez mais forte, mais sólida, mais viva, é um processo natural ao inverso.
o natural da planta num ambiente e num solo propício é viver.
o natural das nossas relações (to amando essa analogia) é crescer e multiplicar, mas que não tá pronto, só largar que vai florescer.
precisa ser um processo de cuidado artesanal, feito com paciência.
o Paulo Coelho tem uma passagem de um livro que eu gosto muito, Brida, que me veio na cabeça agora enquanto escrevia, já compartilhei em outras news antes. é assim:
Cada pessoa, em sua existência, pode ter duas atitudes: construir ou plantar. Os construtores podem demorar anos em suas tarefas, mas um dia terminam aquilo que estavam fazendo. Então param, e ficam limitados por suas próprias paredes. A vida perde sentido quando a construção acaba. Os que plantam sofrem com as tempestades, as estações e raramente descansam.
Mas, ao contrário de um edifício, o jardim jamais para de crescer. E, ao mesmo tempo em que exige a atenção do jardineiro, também permite que, para ele, a vida seja uma grande aventura.
acredito muito que a gente precisa encontrar encantamento nesse ato de cuidar das nossas relações. se não… fica realmente cansativo, chato, desgastante. mas faz parte de uma atitude otimista olhar pro tanto de vida que pode brotar-crescer-fortalecer daquele lugar que antes não tinha nada!
se você chegou até aqui no final desse texto, talvez você descubra que não gosta tanto daquela planta assim, e nesse momento, talvez queira olhar só pra você. faz parte também. que você seja sua própria plantinha pra cuidar.
mas, se você chegou, você faz parte do grupo de pessoas que se nutrem de conteúdos feitos com tempo, desenvolvidos com propósito…to há 2 horas aqui (são 7h35 numa sexta-feira!) te escrevendo com muito carinho e quero te agradecer pela leitura. ao mesmo tempo, se não for abusar da sua boa vontade, peço pra que você apoie esse trabalho compartilhando nas suas redes sociais - um printzinho com um link nos stories já leva esse texto pra longe longe <3
com amor,
carol padilha


