Não trago seu amor de volta!
A gente precisa urgentemente aprender a aceitar términos de relacionamento...
Que 2025 foi (ainda tá sendo!) um ano de encerramentos de ciclos, muita gente já percebeu. Um ano regido pelo número 9 (2+0+2+5 = 9), pra quem acredita em numerologia — e que carrega justamente essa energia de finalizar pendências, fechar capítulos, desapegar.
E, sem surpresa nenhuma, não foi um, dois ou três casais que eu recebi esse ano com a mesma narrativa: uma pessoa sinalizando que não quer mais, que não é o momento de estar junto, que precisa viver outras coisas, que quer — ou já decidiu — terminar a relação… enquanto a outra, imersa na tentativa de entender, corrigir e salvar, simplesmente não consegue aceitar. Algumas vezes, não consegue nem ouvir o que está sendo dito.
Eles chegam até mim na terapia de casal querendo “salvar o relacionamento”. Apesar do meu sobrenome ser Padilha*, tem muito pouco que eu possa fazer quando apenas uma das pessoas ainda quer ficar. Relacionamento exige acordo, reciprocidade, amor, e, por mais que doa admitir…desejo contínuo de estar junto!
{*referência pra quem não é de axé: Maria Padilha, entidade na umbanda e no candomblé, representa um símbolo de amor, desejo e sedução, mas também de desilusão e superação, lidando com as complexidades do coração, como um “espírito que resolve questões de amor”.}
Existe uma parte de nós que acredita que, se explicar melhor, se mudar mais, se consertar aquilo que falhou, talvez ainda haja uma chance. E sim, sempre há espaço para responsabilidade afetiva, autocrítica, amadurecimento, reparo. Você pode (e deve!) se comprometer a agir diferente. Pode reconhecer suas falhas, pedir desculpas sinceras, buscar ajuda, amadurecer. Isso é crescimento, acho show de bola!
Mas tudo isso não te dá o direito — nem o dever — de tentar convencer o outro a continuar quando claramente o que está sendo dito é “eu não quero” (!!!!).
E isso não acontece só na vida real. A cultura pop está cheia de histórias que romantizam a insistência como prova de amor. Um dos exemplos mais claros, pra mim, é o Ted Mosby, nas primeiras temporadas de How I Met Your Mother.

Ted fez de tudo — o possível, o impossível e o imprudente — para ficar com a Robin. Desde o começo, ela já apresentava algo muito claro: queria uma vida diferente da dele. Não se via como mãe, não queria o tipo de estabilidade que ele sonhava, não tinha a mesma ideia de “para sempre”.
Ainda assim, ele insistiu.
E essa insistência, que em muitos momentos é apresentada como romântica, na prática o colocava repetidamente em um lugar de refém da própria expectativa — e colocava a Robin num lugar pesado, quase culpado por simplesmente sustentar a sua verdade. Lugar pesado, eu digo, sendo obrigada a diversas vezes a rejeitar, conversar, colocar limites…até se afastar de vez quando já está em um outro relacionamento.
É uma dinâmica que a gente vê muito na clínica: uma pessoa lutando para sustentar um ideal de relação enquanto a outra já sabe, silenciosamente ou em voz alta, que não quer aquilo. E, quanto mais uma insiste, mais a outra sente que precisa fugir, se justificar ou endurecer.
Insistir quando o outro já foi claro não é amor romântico (!!!!!!!! não tenho ! suficientes pra enfatizar isso aqui!), mas uma falta de escuta e, aqui entre nós, de respeito também - tanto por si quanto pelo outro.
Quando uma pessoa não aceita o fim de uma relação, o sofrimento não fica apenas no campo emocional. Muitas vezes, ele se transforma em ameaças (“vou me m*”, por exemplo), controle, perseguição, manipulação…até chegar em casos mais e mais pesados disfarçados de tentativas de retaliação. A isso chamamos de violência emocional e, em muitos casos, também violência patrimonial — quando o outro utiliza bens, dinheiro, documentos ou recursos como forma de punição ou controle (“pode terminar, mas você vai sem nada!” - eu e minhas alunas na Formação de Terapeutas de Casais estudamos recentemente em supervisão um caso assim, pesadíssimo!)
Infelizmente, quando falamos de homens que não aceitam términos, esse risco se amplia. A violência pode escalar para agressões físicas, ameaças e intimidação — e, em casos extremos, para o feminicídio. A maioria das violências contra mulheres acontece justamente nesse momento de ruptura, quando elas decidem ir embora.
É por isso que aprender a aceitar términos não é apenas uma questão de maturidade emocional, mas uma questão de saúde pública, saúde coletiva e sobrevivência. Culturalmente, a gente PRECISA parar de romantizar a insistência e o “fazer tudo pelo outro”! Sério!
Pesei o clima, né. É que já é pesado mesmo, só trouxe pra cá porque vivemos numa cultura que exalta quem “não desiste nunca” e interpreta o fim como fracasso ou afronta pessoal! Mas a verdade é que ensinar sobre limites, separação, frustração, luto e respeito à autonomia do outro é também uma forma de prevenção.
Aceitar um fim é um ato de cuidado.
É reconhecer quando a relação já não é mais um espaço seguro, leve ou recíproco.
E entender que o outro pode não querer continuar — mesmo que você ainda veja possibilidades, mesmo que você não goste dos motivos que levam a pessoa a não querer mais!
E é aprender que luto não começa depois do término, mas na escuta e na aceitação do que o outro está dizendo.
E tudo bem que aceitar não é imediato, nem bonito, nem calmo. É atravessado por negação, raiva, tentativas, lembranças boas, saudade e perguntas sem resposta. É extremamente dolorido, mas é necessário. Fazer o luto de uma relação — mesmo quando você queria continuar — é uma forma profunda de respeito por si.
Para quem tem dificuldade de deixar as coisas irem, para quem luta contra os fins, para quem tenta costurar o que já rasgou… 2025 tem sido um ano duro.
Mas talvez ele esteja te ensinando algo essencial:
Nem todo amor se sustenta no esforço.
Nem toda história precisa de continuação.
E nem toda porta fechada é uma derrota…às vezes é um limite saudável!
Se permitir terminar também é um ato político.
Reconhecer que ninguém pertence a ninguém + amar também pode ser deixar ir ou se retirar = duas ideias que parecem revolucionárias, mas nem são!
Moral da história, to aqui pra te dizer nessa penúltima news de 2025: se esse é o seu caso, se permita terminar.
Sei que é difícil, parece impossível, mas em algum momento…quando a dor virar aprendizado, se permita recomeçar. Vai rolar, prometo! <3
Com amor,
Carol Padilha




Um belo texto, Carol :)
Ler isso me trouxe diversas perspectivas sobre o que estou vivenciando ultimamente, um término traumático. Meu ex-parceiro terminou comigo de uma forma completamente inesperada e dolorosa. Estou passando por todas as fases do luto, e a dor não é só emocional, meu corpo chega a borbulhar de ardência :)
Entendi que ele tomou essa decisão com base no discernimento dele, e de certa forma percebo que foi essencial. Eu amava mais do que ele, e isso era perceptível. Ele me deixou de maneira crua, sem piedade, com uma desculpa esfarrapada que não cola nem aqui e nem na china.
Poderíamos ter conversado, nos sentado e esclarecido tudo. Mas o que recebi foi apenas uma mensagem de texto dizendo que ele não sentia mais amor.
Doeu profundamente, na mesma semana estávamos fazendo planos para 2026. Percebi o quão vazios os seres humanos podem ser. Espero encontrar minha cura em 2026:))