Precisar de carinho te torna carente?
4 coisas que aprendi sobre carinho, sexo e intimidade ao longo de 7 anos estudando comportamento/relações afetivas + quase 10 anos de relacionamento.
Acredito muito que o que sustenta uma relação afetiva-romântica-sexual ao longo do tempo é essa capacidade de cuidar e desejar o outro em pequenas doses diárias.
Tem um mito-armadilha muito comum nos relacionamentos que eu vejo sempre no consultório e que já me pegou também:
“Se tiver que pedir carinho, não vale. Carinho tem que ser espontâneo.”
A gente precisa conversar sobre isso - e largar de vez dessa ideia, sério meeesmo!
Acho isso uma tristeza só…essa ideia, romantizada e repetida como verdade, só gera frustração, ressentimento, afastamento. Porque, na prática, quem pensa assim geralmente fica em silêncio — se sentindo só, com raiva ou carente (essa palavra que assusta tanto). Enquanto isso, o outro lado, muitas vezes, nem sabe o que tá acontecendo. Tá ali, vivendo a vida, achando que tá tudo bem… e não tá.
Claro que o cenário é diferente quando a pessoa diz com todas as letras: “eu preciso do seu carinho” e é ignorada. Mas não é desse caso que tô falando aqui. Falo especialmente daquelas relações em que parece estar tudo certo — só que só parece, porque um dos lados tá guardando o incômodo de não se sentir cuidado.
Imagina estar em um relacionamento afetivo + amoroso + romântico + sexual onde você não consegue se sentir amada, perceber o desejo e carinho do outro…e fica em silêncio sobre isso?
E sei bem que, às vezes o silêncio vem do medo de parecer “carente demais”. De achar que se precisa de mais carinho, afeto, atenção… tem algo errado com você. Que você não deveria se importar ou desejar tanto, já que o outro não faz questão.
Mas aqui vai uma verdade que aprendi com a clínica, com os estudos e com a vida:
Precisar de carinho não te faz carente. Te faz humana.
Tem gente que precisa de mais toque. Outras, só de estar no mesmo cômodo já está bom. Outras ainda, precisam do afeto dito com todas as letras. E tem gente que não consegue se entregar ao outro de forma íntima se não se sente olhada, nutrida, desejada no cotidiano.
E tudo isso é legítimo.
Recebi uma resposta no Instagram esses dias, quando perguntei: qual foi a coisa mais bonita que a pessoa amada já fez por você?
A pessoa escreveu:
“É no dia a dia. Abrir a porta do carro pra mim. Prestar atenção nos detalhes.”
Isso me fez repensar esse texto todo, que era sobre outra coisa, mas fiquei mexida e contemplada. Porque é isso mesmo: o amor e o desejo não vivem só de grandes gestos. Eles vivem das pequenas demonstrações — que, quando somadas, fazem a gente se sentir cuidada, desejada, vista e segura.
Às vezes a gente imagina que demonstrações de amor/desejo são atos grandiosos: viagens surpresas, declarações públicas, presentes inesperados. Mas o que eu, particularmente, tenho valorizado muito mais são as sutilezas do afeto. O jeito que a pessoa ajeita o cobertor quando você já tá quase dormindo. O cuidado de lembrar que você deve chegar do trabalho com fome e adiantar seu jantar. O toque no ombro na hora certa. O cafuné assistindo série.
Esses pequenos gestos não são “detalhes”.
São formas concretas de dizer: eu tô aqui, eu vejo você, eu quero você.
Se tem algo que esses anos todos estudando/vivendo um relacionamento me ensinaram é que carinho não é um extra. É essencial. Literalmente básico, porque criam uma base segura. Tornam o vínculo mais… macio? Mais gostoso. São eles que ajudam a amortecer os conflitos, a manter o espaço do casal como um lugar de refúgio — e não de tensão constante, pontudo (to aqui pensando num cacto).
E pedir por carinho é, na verdade, uma forma de dizer: quero construir essa base com você. Separei aqui 4 aprendizados sobre afeto-desejo pra gente pensar junto:
1. Carinho físico é facilmente neglienciado.
Abraços apertados depois de dias difíceis. Andar de mãos dadas. Toques sutis enquanto assiste uma série…se tudo isso libera oxitocina, relaxa, conecta, por que é tão negligenciado? O toque é uma das formas mais potentes de dizer “eu tô aqui”, e parece que é a primeira coisa a ser deixada de lado quando a correria da rotina, o cansaço, as contas e preocupações aparecem.
A gente fica tanto nos próprios pensamentos, na cabeça, que acaba criando uma barreira quase física mesmo - um afastamento dos afetos para aguentar os problemas, já que a gente precisa endurecer o corpo, se manter mais racional. E acaba não chegando tanto naquele lugar “quentinho”, de conforto, de afeto, onde você poderia abaixar a guarda, diminuir o ritmo, desaguar as tensões e a vida.
E tem também a possibilidade de demonstrar carinho só não ter sido aprendido/cultivado ao longo da vida (por conta da criação e da família, por exemplo), e diz mais das diferenças afetivas e necessidade entre vocês do que qualquer coisa; nesse caso, já é mais importante conseguir aceitar que cada um tem um jeito, mas entendendo que pra estar em uma relação com demandas diferentes de de afeto/carinho, é preciso reforçar a atenção e o esforço de cuidar da pessoa amada para que não seja uma negligência sendo naturalizada!
2. O amor tá nos detalhes.
Nem tudo é toque. Muitas vezes, o que sustenta o vínculo são ações quase invisíveis:
Fazer o café do jeito que o outro gosta, lembrar de um compromisso importante do trabalho do outro.
Tem várias formas de estar presente, com intenção. Com toda a partilha na internet das linguagens do amor (teoria que tenho várias ressalvas, inclusive, mas que trago em outro momento!), tem ficado mais fácil dos casais identificarem quando se expressam de forma diferente e acabam tendo algum ruído por conta das necessidades emocionais e afetivas divergentes.
Mas, dito isso, você precisa sempre prestar atenção no que VOCÊ oferece pro outro, e não só no que te falta. Quero dizer: você repara quando a outra pessoa não faz, não fala, não age como você precisa…mas de que forma você está reforçando essa dinâmica (de falta!) quando você só observa os seus incômodos, mas não comunica sobre? Ou, se comunica, fala em tom de cobrança (“nossa, você não faz isso nunca! finalmente um carinho”)?
Percebe? Os seus detalhes também importam - e muito!
3. Afeto e desejo se nutrem mutuamente
O carinho do dia a dia cria um clima de confiança e abertura.
É ele que prepara o corpo e o coração pro encontro erótico.
Sem esse cuidado, o sexo pode virar rotina ou um “bater ponto”, super mecânico.
Mas quando o afeto tá presente, o desejo vai encontrando espaço através do flerte, dos olhares, do cheiro no cangote….mas é preciso, de fato, prestar atenção no tom do carinho.
Se só rola carinho com intenção de transar, acaba gerando uma repulsa, um afastamento, como se fosse utilitário ou manipulado. Acho importantíssimo a gente conseguir conversar sobre isso abertamente, de forma honesta, e tornar a demonstração de carinho mais cotidiana, menos sexual, com equilíbrio.
4. Pedir carinho é um ato de coragem, não de carência
Quando a gente expressa o que precisa, a relação se fortalece.
Não tem nada de fraco em dizer:
“Assim pra mim não funciona. Eu preciso de mais.”
É justamente aí que mora a chance de construir um vínculo mais profundo — e mais verdadeiro.
Então, depois de te escrever por hoooras (oi, cê chegou até aqui? <3), te pergunto:
✨ Quais gestos — físicos ou cotidianos — mais nutrem o seu relacionamento?
✨ Você se sente segura no seu relacionamento pra pedir o carinho que precisa?
Comenta comigo, quero muito saber. E se esse tema te toca, te inquieta ou te move, te convido pra continuar essa conversa no Grupo de Estudos sobre Sexo, Sexualidade e Relacionamentos, que começa comigo de forma online, em breve.
Vamos falar de afeto, desejo, corpo, intimidade — com profundidade, escuta e sem tabu. Cê topa?
Com carinho,
Carol Padilha


