Quando a dor faz a gente parar pra olhar.
Uma picada de vespa pra te lembrar de sair do automático.
Conto nos dedos de uma mão a quantidade de vezes que precisei usar moletom esse ano, mas parece que agora, final de agosto/início de setembro, finalmente o inverno chegou aqui em Vila Velha, onde eu moro, no Espírito Santo. Semana passada, saí do consultório enrolada em uma pashmina amarela que comprei no Uruguai em 2023 (uma lembrança de quando fui com a UERJ para uma semana de estudos sobre gênero, sexualidade, cartografia e feminismos, na Universidad de la Republica…foi incrível - saudades!)
Eis que o vento de Itaparica finalmente me deixou com frio!
Eu estava a caminho de casa para almoçar rapidamente e sair logo depois. Almocei apressada, e ao me arrumar para sair novamente — calçando os sapatos, ajustando o cachecol — senti uma dor no rosto. Ardência, doeu um tanto, mas continuei. Voltei à rua, me encolhi no casaco, tentando escapar do frio, e novamente aquela dor aguda. Era como se algo estivesse me picando. Na verdade, era.
Uma vespa tinha ficado presa na minha pashmina amarela, lutando contra a ventania junto comigo. Três picadas. Uma no queixo, duas na orelha. Finalmente foi o suficiente para me fazer parar e reparar. Me tirar do automático da rotina e das demandas do trabalho.
Precisou doer e continuar doendo para eu entender que estava ali apenas de corpo presente, mas sem realmente estar.
Não prestei atenção aos detalhes, só à missão final.
Não lembro o gosto da comida que comi na pressa de sair. Ignorei a primeira ferroada, só a dor real me fez parar. E, pensando nisso, vejo como fazemos o mesmo nos nossos relacionamentos. Em meio à rotina, trabalho, problemas, simplesmente seguimos em frente, tocando um barco que às vezes não tem ninguém dentro. Deixamos chegar ao insuportável para finalmente olhar.
Mas aí já é tarde demais, já machucou demais.
Tenho casais em terapia que só param para refletir sobre o relacionamento quando estão sentados comigo, 1h30 por semana — e aí o tempo é curto, porque há ressentimento, mágoa, tristeza acumulada enquanto não se prestava atenção. Esperar chegar ao insuportável para olhar é dolorido para todos os envolvidos.
Quanto tempo leva até você perceber que não reconhece mais a pessoa ao seu lado? Quando parou de ser interessante descobrir novos detalhes sobre como aquela pessoa pensa? Quando começou a ficar chato ouvir as mesmas histórias?
É curioso observar o movimento contrário na terapia individual: enquanto casais desfocam da relação para lidar com problemas do trabalho, algumas pessoas na terapia individual esquecem completamente de olhar para o trabalho enquanto tentam entender sua relação. Vespas diferentes…
Hoje, especialmente, quero te propor um exercício. Algo simples, mas que pode ser poderoso para te ajudar a prestar mais atenção naquilo que está pedindo cuidado na sua vida: o Gráfico de Energia. Funciona assim:
Pegue uma folha de papel e desenha um grande círculo. Esse círculo é a representação de um dia, ou uma semana, como você preferir.
Divida-o em fatias para representar as áreas da sua vida: trabalho, relacionamento, saúde, lazer, desenvolvimento pessoal… Cada fatia representa o tempo e a atenção que você tem dado a cada uma dessas áreas ultimamente.
Dá uma olhada: tem alguma área gigante e outras que mal aparecem? Como você se sente olhando para isso?
Agora, o mais importante: Tem algo que anda precisando de mais cuidado?
Escreva ao lado do gráfico pequenos passos que você pode dar para ajustar essas fatias. E não se cobre tanto — comece com uma coisa pequena, viável. Pode ser reservar um tempinho para uma conversa sem pressa com seu parceiro/a, ou quem sabe, alguns minutos para respirar e se cuidar antes de entrar no modo automático do dia.
É importante que você refaça esse exercício sempre que sentir que a vida está escorregando para o automático de novo, tudo meio bagunçado. Não tem certo ou errado aqui, mas sim um convite para você observar onde está colocando sua energia e se é realmente aí que você quer estar.
Porque, no fim das contas, viver melhor é também sobre escolher para onde olhamos, onde colocamos nossa energia e presença. Espero que esse exercício te ajude a ver o que talvez tenha passado despercebido... antes que doa demais.
PS.: tenho gostado de pensar carreira e relacionamento de uma forma mais aproximada, acho muito que a forma que a gente se posiciona nas nossas relações diz muito sobre como a gente se posiciona no trabalho (e vice-versa, fica como reflexão!), me conta se esse texto faz sentido pra você? <3
Com amor,
Carol Padilha.



