Relacionamento sem sexo.
E outras formas de encarar a falta de intimidade!
Já tem uns anos que recebo na clínica cada vez mais casais com uma questão sexual rolando: ora é porque “não é mais a mesma coisa”, ora é porque "a rotina atrapalha”, ora é porque a intimidade tá menor, e no meio dos conflitos, a relação sexual em si nem cabe…e por aí vai.. E penso muito sobre como, apesar de cada caso ser um caso, tem sempre algo em comum quando o assunto é sexo. Essa news é sobre isso - e também é uma forma de responder às muitas perguntas que recebi na caixinha que abri no insta esses dias!
Pra início de conversa, acho importante mencionar que sexo não é essencial pra todo mundo - e que frequência ideal de relações sexuais por semana/mês é um número que não existe. As pessoas tem necessidades e desejos diferentes, e é impossível colocar uma régua só pra todo mundo. E não é porque não rola mais relações sexuais, que virou amizade, gente…é preciso muita calma antes de rotular as coisas. Dito isso, podemos seguir em frente!
Já ouviu aquela frase “Tudo na vida é sobre sexo, menos sexo. Sexo é sobre poder”? É de alguma série americana, não lembro qual, mas me vem sempre na cabeça quando penso sobre os relacionamentos sem sexo. Na terapia de casal, principalmente, o que tá em jogo muitas vezes é uma relação de injustiça e desequilíbrio de poder que acaba aparecendo na dinâmica do casal, mas vamos já chegar aí. Primeiro vou responder algumas perguntas de vocês.
Pergunta 1: “O que fazer quando já tentei e falei tudo que eu podia, mas nada mudou e continuamos sem ter relações?”
Pra essa e pra qualquer outra pergunta onde você não sabe o que fazer, a resposta é sempre começar falando sobre a sua dificuldade e sobre os seus sentimentos. A gente abre o diálogo falando sobre como está sendo um processo difícil pra você (por N motivos) de puxar esse assunto, mas de como você sente falta. Fale de como você está sem saber o que fazer, e que precisa de ajuda.
Veja, o sexo começa com a vulnerabilidade. Abaixar a guarda e falar sobre os seus sentimentos, por mais que possa ferir seu orgulho (tem gente que sente como humilhação ter que “pedir pra ter relações”), é um convite pra que a outra pessoa possa ser vulnerável também. Aumenta a confiança e faz com que a pessoa não se sinta exposta sozinha, e que possa falar se tem algo acontecendo.
Daí, puxando essa conversa e falando sobre a sua necessidade (sem apontar o dedo, sem criticar, sem julgamento, apenas trazendo a conversa com um desejo genuíno de entender a experiência da outra pessoa!), pode abrir uma porta pra vocês conversarem de forma honesta.
Outra possibilidade é de a pessoa se sentir cobrada e se fechar ainda mais, dependendo de como a pessoa tá disponível pra acolher a sua vulnerabilidade…o que puxa a próxima pergunta.
Pergunta 2: O que fazer quando a pessoa se sente cobrada quando o assunto é sexo e acaba fazendo ou puxando mais pra “me agradar”?
Nem todo mundo vai entender um pedido de bom grado. É um hábito de algumas pessoas o movimento de, ao ouvir uma demanda, entender que é uma cobrança/crítica e querer se defender. Quando o assunto é assim, delicado, o que você pode fazer é antecipar a reação da pessoa: “Olha, eu sei que esse assunto pode ser difícil, queria que você tentasse me ouvir sem reagir ou se defender, só ouvir primeiro”.
(Aliás, penso muito que, se a pessoa se dispõe a ter uma relação sexual “só” pra te agradar, tem alguma coisa muito errada rolando na relação de vocês, mesmo, e talvez fosse melhor nem rolar nada! Chega a ser violento pensar em como essa situação poderia ser feita contra a vontade, e espero de coração que a relação de vocês não tenha ido por esse caminho!)
Porém, entendo bem o cenário onde a pessoa simplesmente não quer mais ser apontada ou cobrada, não quer ser percebida errando - e acaba se convencendo ou se disponibilizando a tentar algo diferente para evitar um conflito. Pra mim, isso diz mais de um ciclo de evitação X responsabilização da própria pessoa e uma dificuldade de colocar limites do que não querer a relação sexual de fato, sabe? Vale puxar a conversa ainda assim pra entender melhor o que tá rolando.
Pergunta 3: E quando a pessoa diz que não tem vontade? Ela tem depressão e não tem libido, mas eu tenho desejos e necessidades, e afeta minha autoestima.
Meu bem, leia com atenção o que eu vou te dizer: a sua relação é forte o suficiente para sustentar uma doença?
A depressão é uma doença séria, destruidora, e coloca um peso adicional em tudo que a pessoa está tentando realizar. Se a depressão dela afeta a relação de vocês, é provável que ela se sinta culpada ou envergonhada de “não conseguir”, e nesse momento ela mais precisa de apoio do que de sentir que está falhando em mais um lugar.
Sustentar um período difícil como no caso de uma doença (mas poderia ser um pós-gravidez, por exemplo, ou um momento de estresse no trabalho) é desafiador, mas estabelece um precendente de confiança e pertencimento. Quer dizer: apesar de estar te afetando por um período da relação de vocês, você permanece ali, apoiando, incentivando. Isso ajuda demais!
No entanto, se esse período se estende por muito tempo…se essa situação “externa” continua interferindo na relação de vocês, e afetando a sua autoestima, vale se perguntar: ela está fazendo algo sobre ou está normalizando a falta de vontade?
Porque sabemos que fazer exercícios físicos regularmente, tomar a medicação adequada, fazer terapia…tudo isso ajuda e ajuda muito! E se ela está fazendo TUDO que poderia e realmente não está conseguindo, talvez seja hora de um tratamento hormonal (com endócrino ou ginecologista!). Mas, se não, fica mais difícil mesmo de você ter paciência, até porque essa é uma questão que te afeta.
O mais importante aqui é não normalizar a falta de vontade, pelo motivo que for, e sempre tentar cuidar e olhar pra isso com carinho, ainda que doa!
Agora, voltando pra terapia de casal, pensei em alguns pontos principais que resultam frequentemente em falta de sexo nos relacionamentos, observem se o cenário da relação de vocês se encaixa em alguns desses pontos. Porque, se sim…o esperado é que realmente tenha alguma afetação na vida sexual de vocês!
1. Falta de equilíbrio ou engajamento na relação
Um parceiro se sente sobrecarregado com as responsabilidades domésticas ou financeiras, enquanto o outro parece não se importar.
Um parceiro sempre inicia a intimidade, enquanto o outro raramente toma a iniciativa.
Um parceiro se sente emocionalmente negligenciado, enquanto o outro acha que está dando o suficiente.
Um parceiro sente que está sempre se esforçando mais para manter o relacionamento.
Desequilíbrio na divisão de tarefas domésticas ou cuidados com os filhos.
Um parceiro se sente pouco valorizado ou reconhecido pelos seus esforços.
2. Homofobia internalizada em casais LGBTQIA+
Um parceiro tem dificuldade em se entregar emocionalmente porque aprendeu a se proteger de uma relação sexual “errada”.
Um parceiro não consegue se desvincular do que a família de origem reprimia e isso afeta a conexão íntima.
3. Confiança e vulnerabilidade
Traições ou mentiras que abalam a confiança no relacionamento.
Um parceiro se sente julgado ou criticado ao expressar seus desejos ou necessidades.
Falta de comunicação sobre expectativas, desejos (como a pessoa gostaria que fosse feito o ato sexual em si) e limites na vida sexual.
4. Ciclos de conflito que afetam a intimidade
Brigas constantes que não são resolvidas, criando ressentimentos acumulados e distanciamento emocional.
Um parceiro usa o sexo como moeda de troca ou punição (“se não fizer o que combinamos, vai ficar sem!”), o que é entendido como manipulação.
Falta de reconciliação após conflitos, deixando mágoas que afetam a conexão íntima e a vontade de estar junto.
5. Fatores externos
Estresse no trabalho, com a educação dos filhos ou problemas financeiros que consomem a energia do casal.
Mudanças físicas ou hormonais (como gravidez, menopausa ou problemas de saúde).
Rotina cansativa que deixa pouco tempo ou disposição para a intimidade.
No final das contas, apesar da gente conseguir identificar “a causa”, na terapia de casal tem inúmeras formas de lidar com um relacionamento sem sexo. Obviamente, vale a gente pensar que se os conflitos ou a falta de intimidade persistirem, considerem buscar a ajuda de uma terapeuta de casal (oi!!)!
Mas resumidamente, o caminho é sempre de: comunicação honesta e cuidadosa, que esse é um assunto delicado > criar mais conexão emocional (passando um tempo gostoso junto, sem distrações, se possível) > reconstruir ou construir a intimidade (criando um ambiente seguro pra vocês serem vulneráveis e receberem afetos/carinhos).
Lembrem que o ato sexual é uma expressão de desejo, mas não só. Tem a ver também com ter tempo, disponibilidade emocional, não ter responsabilidades na cabeça (trabalho, filhos, casa, etc), ter um momento a sós com o próprio corpo (autoconhecimento), sentir conexão emocional com o(a) parceiro(a), se sentir livre, amada, aceita. E, honestamente, a falta de sexo nem é o mais importante aqui, eu diria. Pra mim, particularmente, é mais importante se há a presença da confiança, da vulnerabilidade, da intimidade pra além do ato sexual em si.
Vale perguntar pra refletir: Que outras formas de prazer vocês sentem juntos e sozinhos? Que coisas vocês podem fazer individualmente pra crescer o desejo, pra aumentar a excitação com o outro? De que outras formas vocês se colocam em um estado mais…erótico? Ou seja: vocês ainda flertam? Vocês passam um pelo outro e fazem um elogio, dão um cheiro no cangote?
A diminuição da frequência sexual ao longo do relacionamento é algo comum, mas não precisa ser permanente. Compreender as dinâmicas emocionais e relacionais por trás dessa mudança, como propõe a psicologia contextual de casais (que to trazendo aqui pra você em outras palavras!), pode ajudar a reacender a chama e fortalecer a conexão entre vocês. E, por favor, não esqueçam que um relacionamento saudável é construído dia após dia, com comunicação, confiança e muita paciência!
Com carinho,
Carol Padilha
PS.: se gostou desse texto, tira um printzinho e posta nos stories do insta OU manda pra alguém, vai? To querendo muito que as pessoas leiam mais minhas publicações - e essa aqui demorou hooooras pra escrever!

