Sobre morar junto, conviver, viajar
& um tanto de outras coisas
Há algo que acontece em viagens que é mágico. Dizem que um casal não deve ir morar junto sem antes fazer uma viagem longa, porque é só viajando que a gente entende como é a convivência no dia a dia…mas eu acrescentaria que é preciso também viver outras duas outras experiências: viajar sozinha e viajar com pessoas diferentes de você.
Em 2021, fiz minha primeira viagem sozinha, de férias na Bahia. Eu adoraria dizer que aquela viagem foi uma delícia, que aproveitei muito, mas a verdade é que eu chorei todos os dias. De medo, de cansaço, de solidão, de tristeza…foi ali que percebi o quanto eu era dependente emocionalmente do meu companheiro (que, naquele momento, era ex).
Admitir pra mim mesma que eu não fazia ideia da dificuldade que seria escolher um restaurante pra comer, um passeio pra fazer - o que eu gostava sozinha?!?! - foi aterrorizante, mas, ao mesmo tempo, libertador. Me senti um tanto em um primeiro encontro às cegas, onde eu poderia decidir fazer perguntas pra conhecer aquela pessoa à minha frente, que parecia interessante, ou simplesmente ir embora e procurar algo mais seguro, mais conhecido.
Foi nessa viagem sozinha que fiz o compromisso comigo mesma de me aproximar de mim, de dedicar aquele mesmo amor, atenção e energia que eu dedicava à outras pessoas para me conhecer mais intimamente.
O meu erro, percebi ali, foi ter confundido parceria com anulamento da minha individualidade, e aí virou dependência emocional mesmo. Sabe misturar tanto que se perde, precisar do outro ali do lado pra que a gente consiga se mover, fazer as nossas coisas?
Essa foi a primeira lição que aprendi em uma viagem: pra que você tenha uma convivência gostosa morando junto, é importante demaaais que você saiba viver sua vida sozinha também, ou que ao menos esteja disposta a descobrir mesmo estando junto.
Acredito muito que a gente precisa poder contar com nossa rede de afetos, com alguém que vai estar ali pra apoiar, ajudar, levantar quando a gente mesmo não tá dando conta. É gostoso poder olhar pro lado e saber que estamos seguras, que tem alguém ali disposto a chegar junto. Sei que a gente ouve que precisa ser independente, mas acho mesmo que quando estamos em um relacionamento longo, não faz tanto sentido não contar com a pessoa que tá ali (minha opinião pessoal além de profissional, tá?).
Te escrevo hoje sentada do aeroporto, voltando pra casa depois de 15 dias viajando com minha mãe (59) e minha tia (67).
Eu nunca tinha feito uma viagem com pessoas tão diferentes de mim, a começar pela idade e pela energia pra fazer as coisas.
E então eu me vi tendo que reaprender a estar junto, a afinar e apurar meu próprio tempo e meus hábitos pra conseguir me adaptar nesse cenário sem me perder - com meu marido e minha filha, com quem convivo todos os dias, a rotina parece que já é uma dança, tudo ensaiadinho e dentro dos lugares.
No meio da viagem, percebi que precisava ficar em silêncio ou sair sozinha um tanto pra curtir outras coisas, ou então eu me tornaria meio insuportável de estar perto.
Eu não conhecia nada de Belém, não sabia que passeios poderia fazer sozinha, e fiquei um tanto frustrada de início. Me senti sozinha e perdida, bateu uma saudadezinha da minha casa…mas topei conhecer a cidade como quem conhece um novo amor. Quis me encantar com os cantinhos, topei experimentar coisas diferentes - que nem o dia que fui numa noite de lambada e acabei dançando com um senhorzinho de 72 anos. Eu ativamente me coloquei pra viver coisas novas, sentir cheiros, ouvir sons e provar gostos diferentes, e foi essa experiência sensorial que deixou tão rica e povoada minha solitude.
Conheci uma mulher no hostel em que ficamos, a Serena, uma italiana lindíssima e queridíssima que veio desbravar o Brasil sozinha há quase 2 anos, se encantou e ficou, e que agora trabalha com políticas públicas em São Luís, no Maranhão. Foi ela que me convidou (e também minha prima que chegou pra passar o final de semana com a gente) pra um bar de reaggae, que normalmente seria 0 o meu tipo de passeio, mas que topei. Fomos nós 3, dançamos, rimos, bebemos caipirinha - e lembrei ali que o encontro com a vida, topar as coisas, é uma delícia.


A segunda lição que ficou nessa última viagem foi então que me abrir pra viver junto é um treino diário de experimentar conhecer o mundo do outro, mas também enriquecer o meu mundo.
Foi assim que acabei morrendo de medo nadando em cima de um búfalo na Ilha do Marajó, em um passeio que fui sozinha porque as minhas companheiras senhoras jamais chegariam tão perto. Deu uma adrenalinazona ter que descobrir o que fazer lá de cima do búfalo, no meio de uma praia de água doce (incrível, tá?). Eu tremia e não conseguia relaxar de jeito nenhum, tinha medo de cair (!)...todo mundo ria e se divertia nadando com os búfalos e eu lá, sem saber o que fazer. Até que o guia disse “é mais fácil do que você tá fazendo parecer, é só relaxar que ele vai te guiar”.
Pô!!! Imagina confiar na natureza do bicho de ser estável e na minha possibilidade de me adaptar, de nadar sozinha se precisasse?



Respirei fundo, tremendo ainda, e soltei: primeiro os pés, depois soltei o peso em cima do Caribe, segurava ele no meio d’água só pela gordurinha-couro nas costas (fofo). Essa era toda a graça do passeio: o contato absoluto com a imprevisibilidade da natureza, da maré e me sentir pequena do lado daqueles bichos. O treino ali era de abdicar da minha ilusão do controle um tanto também, me deixar confiar.
Depois, quando saímos da água e fomos fazer um percurso de 1,5km pra voltar, eu já era mais íntima Caribe, do seu Leônidas (o dono do búfalo). Viramos um time, cheguei orgulhosa e cheia de vida. Me emocionei, me senti forte, corajosa. (Entendeu o enriquecer agora? Meu próprio repertório emocional e de vivências sozinha!)
A verdade é que em viagem (e na convivência morando junto) não tem erro, tem inúmeras possibilidades, inclusive a de não gostar e falar “é isso, vou embora, não to curtindo, vamos fazer de outra forma”. A liberdade de ir e vir é cheia de privilégios, sim, mas às vezes a gente se coloca em lugares/situações/relacionamentos também como se não tivéssemos liberdade nenhuma…e nem sempre é verdade.
Liberdade assusta.
Independência assusta.
É muito poder sobre si!
Tem dias que eu gosto e não negocio nem um pouquinho de ter esse poder todo sobre mim, tem outros que eu gostaria só que alguém falasse “vamos fazer isso aqui e pronto”. Às vezes cansa o peso da responsabilidade sobre minha própria vida - e ter que lidar com as consequências das minhas próprias decisões sem ter ninguém pra culpar.
E aí entra a terceira lição, e talvez a mais bonita de todas as minhas viagens: viver e estar junto tem muito a ver com otimismo. A gente precisa acreditar que as coisas vão dar certo, que vamos encontrar um caminho, pra continuar colocando um pé na frente do outro. Nada é garantido, pode sair tudo muito longe do esperado, é uma possibilidade da convivência ser uma merda…mas talvez seja só a melhor viagem da vida, sabe?
No dia a dia de um casal, parece que é mais fácil ser gentil com qualquer outra pessoa do que com o próprio parceiro. A intimidade muitas vezes traz competição, disputas, e esquecemos que estamos no mesmo time, pra curtir a mesma viagem. Mas não precisa ser assim. Entendi viajando (junto & pra dentro) que uma convivência gostosa é uma soma de individualidade + intimidade + conexão + diálogo, de forma leve e natural.
Se tá pesado demais, algo precisa ser afinado, ajustado, reorganizado.
Falo disso mais na aula que vou dar semana que vem, que te convido de coração pra participar se você mora junto ou convive com pessoas e tem atritinhos diariamente, que afetam a convivência e minam a vontade de estar perto. Se você sente que, na sua relação, a convivência está mais para um cabo de guerra do que para uma dança harmônica, minha aula sobre convivência e rotina para casais foi feita para você. Vamos conversar sobre como resgatar essa leveza no relacionamento, conciliando quem você é com a pessoa que você ama, sem perder a conexão. Se quiser participar, chegue aqui, vai ser massa!
Como sempre, te agradeço pela leitura, pelo apoio e pela troca!
Com carinho,
Carol Padilha


